“Enquanto isso, navegando vou sem paz.
Sem ter um porto, quase morto, sem um cais”
Marcelo Camelo, Los Hermanos
Um dia meu pai estava sentado, trabalhando e parou. Contou-me uma piada e rimos juntos, embora a piada não fosse engraçada. Meu pai um dia disse muito sério para tomar cuidado quando saísse, “sabe como é… drogas, violência… fica esperto, tá?”. Um dia eu saí e quando cheguei em casa, embriagado… ele ainda estava acordado e finjiu não ser por minha causa, mas perguntou se tudo ocorrera bem.
Um dia meu pai ficou muito bravo comigo, disse-me coisas horríveis que nunca irei esquecer. E eu fiquei com ódio, raiva e também acabei dizendo coisas horríveis para ele que, provavelmente, não esquecerá tão cedo.
Numa tarde de domingo absolutamente normal e monótona ele ouvia uma peça de Verdi na sala. Deitado ao sofá, com os braços cobrindo os olhos… parecia dormir, não sei. Eu fui lá e sentei em cima da barriga dele e joquei meu peso todo em cima dele e ele gritou de dor ou de susto. Prendeu-me entre o sofá e ele… eu gritei de dor. Rimos durante uns quinze minutos enquanto recuperávamos o fôlego… então meu pai disse que me amava.
Ás vezes quando chegava da escola meu pai perguntava se estava tudo bem… eu mal respondia, afinal nada novo acontecia na escola há anos. Teve dias que meu pai nem falava comigo… coisas do dia-a-dia.
Em um dia do verão compramos vários sorvetes de chocolate para ele e de amendoim para mim. Sentamos na praça e conversamos assuntos triviais, tipo “interessante aquele toldo ali” ou ainda “será que chove hoje?”.
Quando comecei a namorar ele ficou feliz. Sua fronte iluminou-se e disse que estava orgulhoso de mim. Em uma outra ocasião quando saí com uma menina idiota ele me consolou: “Isso passa. Ela não era boa o bastante para você.”, “Fica frio.”… “Vamo toma uma?”. Às vezes minha namorada jantava em casa… ele adorava ela! Conversam, riam… até piadas sobre mim saía dali.
Quando não passei no vestibular meu pai disse para não me preocupar. Ele disse “descanse meu filho, todo ano tem vestibular… no próximo vai dar tudo certo”. E deu. E nisso ele não se cabia dentro de si. Contou para os amigos, abraçava-me enquanto fazia isso, como quem diz “esse é o meu filho… melhor faculdade da américa latina”. E quando eu disse que a faculdade era uma bosta, que só tinha filhinho de papai, cusão e professor filha da puta ele disse “você é muito melhor que eles. Você lutou por isso, você é muito bom no que faz. Não se deixe abalar por meia duzia de retardados que sempre tiveram de tudo”.
Teve também uns dias que a gente sentava e conversava assuntos sérios. Contava meus planos para o futuro e discutíamos um pouco. Falávamos sobre política, filosofia, arte, cultura, música… o encatamento era mútuo.
Na verdade meu pai nunca me disse nada disso e eu também nunca disse nada para ele. Quer dizer, trocamos algumas palavras um dia, mas o tempo não deixou que certas coisas acontecessem. É só mais um daqueles sonhos que temos acordados. Ou sei lá, insanidade pura mesmo… não sei. Mas mesmo assim: Pai, eu amo você e o mundo que se foda. E eu odeio as festas de fim de ano. Caralho, pai… você se foi muito cedo.
Leu isso? Seu pai ainda vive? Então, porra, sai um pouco do computador e vá ficar com ele um pouco.