Essa janela ingrata que nos separa…
Tento te chamar, sem som, estendendo meu braço pelo único vão que restou aberto – em vão…
Fico aqui, minha amiga, lembrando das nossas gargalhadas pela madrugada, feito duas mulheres recém-separadas que saem bêbadas do bar. Lembro também do Bilú, aquele que pensava que podia destruir nossa amizade… Não consigo nos imaginar separadas, ainda mais por alguém do sexo masculino!
Quantas noites de lua passei fora de casa, junto com você? Descobri que podia fazer isso quando minha mãe começou a se cansar dos meus passeios e me deixar trancada para fora de casa… Nós saíamos pela escurdão, espiando os casais que namoravam nas noites quentes – coisa que talvez você e eu nunca façamos. Ríamos alto, nos denunciando, quando eles faziam aqueles barulhos estranhíssimos! Hahahahaha!!!
Lembro também do dia em que você chegou na vizinhança: sua tez amarronzada era novidade para mim, que sou mais pálida, cheguei até a pensar que você era feita de chocolate! Eu passava horas te observando de longe e pensando se você era mesmo da mesma espécie que eu… Mas você me ensinou que essa coisa de cor não tem nada a ver…
E agora, que essa coceira estranha acometeu até os seus olhos, estou aqui, separada de você, por uma maldita janela! Nunca havia sequer pensado nisso.
Já implorei para minha mãe: “Me deixe sair, eu juro que não encosto na Mimi!”, mas ela, não me compreende, apenas dizendo, do alto de suas longas pernas: “Nina, quer tomar um pires de leite? Vem aqui com a mamãe, psiusiusiusiu…”.
Sem mais o que fazer, me coloco aqui, no vão da janela, com a pata para fora, esperando você abrir os olhos doentes e miar de alegria…
“Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!” (Vinícius de Moraes)
(Essa historinha é baseada em uma cena muito bonita que presenciei, da escrivaninha do meu quarto)